Projeto Biomas destaca potencial econômico na biodiversidade do Cerrado

Durante a Agrobrasília 2019, realizada neste mês no Parque Tecnológico Ivaldo Cenci no Distrito Federal, o pesquisador Felipe Ribeiro apresentou o potencial de produtos e serviços na biodiversidade do Cerrado, que respeita à legislação ambiental e gera retorno econômico para os produtores rurais.

Ribeiro faz parte do time de pesquisadores do projeto Biomas, uma iniciativa da Embrapa e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), reúne 330 especialistas e 122 instituições em todo o País. O objetivo é desenvolver formas de gestão da paisagem na propriedade rural com a inclusão de árvores em sistemas produtivos nos seis biomas brasileiros. “Trabalhamos para entender como o Código Florestal está ajudando no que plantar, onde plantar e como plantar espécies nativas”, explicou Ribeiro.

O Cerrado tem mais de 12 mil espécies de plantas conhecidas. “Quando se fala em recomposição e plantio, temos que saber onde está o pote de ouro nesse sistema. Se é que ele existe”, observou o pesquisador, apontando para a necessidade de convencimento dos produtores rurais quanto à necessidade de plantar árvores na propriedade, mesmo que se tratem de espécies perenes que não trazem a renda anual da produção de grãos. “Temos que entender esta pergunta que o agricultor sempre se faz: o que faço com o que tenho? Todas as perguntas sobre a recomposição têm que ser feitas antes de se plantar uma espécie nativa”, disse.

Ao falar sobre o mercado da biodiversidade e os atores, Ribeiro destacou a necessidade de transformar o manejo agrícola na commodity “conservação” para que haja assistência técnica, crédito, informação e tecnologia, políticas públicas, fiscalização, entre outros fatores. “A legislação obriga o produtor a plantar, mas não informa onde nem quando ele deve coletar as sementes. Essa é a nossa obrigação como instituição científica para que a lei possa funcionar”, comentou.

O pesquisador lembrou que o produtor tem a obrigação legal de preservar o ambiente em  áreas de Preservação Permanente e Reserva Legal, mas que o que deve ser feito é a conservação dos recursos naturais. A conservação é o uso racional de um recurso qualquer (água, solo, biodiversidade entre outros), ou seja, é adotar um manejo de forma a obter rendimentos garantindo a autossustentação do meio ambiente a ser explorado. A preservação, por outro lado, significa apenas proteger um ecossistema ou recurso natural de dano ou degradação, ou seja, não utilizá-lo, mesmo que racionalmente e de modo planejado. “Na conservação, precisamos entender qual o sistema adequado para cada uma das áreas. Na preservação, estamos falando principalmente de serviços ambientais, dos quais, hoje, ainda não temos uma avaliação econômica muito clara”, afirmou.

Ele destacou a necessidade de levantar conhecimentos científicos suficientes sobre o Cerrado para que a conservação ocorra nas propriedades rurais do Bioma, que tem clima savânico, cerca de 1.600 mm de chuvas anuais em média, com períodos chuvoso e seco bem definidos.
“Quando se fala em serviços ambientais, que espécie vamos plantar? Quais serviços essa biodiversidade tem? Quais são os produtos mais expressivos dessa cadeia da sociobiodiversidade?”, questionou, citando potenciais produtos como fruteiras, mel, fitoterápicos, animais silvestres, plantas ornamentais, ecoturismo, artesanato, espécies madeireiras e serviços ambientais. “Isso tem que sair do potencial para o real”, afirmou.

O pesquisador lembrou a possibilidade de venda dos serviços ambientais nas áreas de preservação permanente e reserva legal, mas que é preciso compreender a distribuição das espécies para realizar o manejo dos ecossistemas. “Temos que estar juntos na venda dos produtos dessas 12 mil espécies do Cerrado e entender de quais delas há algum conhecimento que possamos estimular no momento da recomposição desses ambientes”, comentou, destacando que informações e conhecimentos sobre 200 espécies florestais, 100 de savana e 50 campestres já estão disponíveis na plataforma digital WebAmbiente.

Ele citou exemplos de espécies nativas como baru, pequi, buriti, maracujá silvestre (BRS Pérola do Cerrado), butiá, e mangaba, que já são exploradas comercialmente por empreendedores como Clóvis de Almeida, proprietário da marca de Frutos do Brasil, que comercializa sorvetes e picolés de diversos sabores da biodiversidade do Cerrado. Segundo análise econômica das atividades da propriedade de Clóvis, os lucros com a produção de mangaba e de murici foram superiores ao da pecuária leiteira.

Além de contar com informações sobre cerca de 350 espécies para o Cerrado, o WebAmbiente disponibiliza estratégias de plantio e permite a realização de simulações de recomposição ambiental para as propriedades rurais em atendimento à nova legislação ambiental. O Novo Código Florestal (Lei 12.651/2012) contempla quatro alternativas de recomposição: condução de regeneração natural de espécies nativas; plantio de espécies nativas; plantio de espécies nativas conjugado com a condução da regeneração natural de espécies nativas; e plantio intercalado de espécies lenhosas perenes ou de ciclo longo exóticas com nativas de ocorrência regional.

“Cada estratégia tem um custo. Temos que entender as condições do ambiente para saber se ele permite a regeneração natural ou se é preciso algum trabalho mecânico de plantio”, observou Ribeiro. Ele também ressaltou a necessidade de compreensão da relação entre os processos de regeneração natural e plantio de espécies, da intensidade da pressão humana, das condições da área, se está perturbada ou alterada ou degradada, e das condições de regeneração natural.

“Não adianta o produtor prometer o Projeto de Recomposição de Áreas Degradadas ou Alteradas (PRADA) se a área estiver muito degradada. Precisamos entender a situação para buscar os fatores de degradação que estão ocorrendo e começar a consertá-los para então escolher o método de regeneração e as técnicas de plantio”, explicou, ressaltando a grande quantidade de profissionais, projetos e informações envolvidos no WebAmbiente.

“Só vamos fazer gestão ambiental com conservação da biodiversidade, da água com o protagonismo do produtor. Temos a expectativa de ter todos os atores envolvidos”, finalizou.

(Fonte: Assessoria de Imprensa)