Paralisação de caminhoneiros levanta debate sobre dependência do sistema rodoviário

A paralisação dos caminhoneiros por conta da escalada no preço dos combustíveis traz à tona um antigo problema logístico brasileiro: a dependência do modal rodoviário. Em meio a estradas interditadas e transportadores de braços cruzados, o agronegócio é justamente o setor que está pagando a conta mais cara desta crise.

Por conta da perecibilidade da carga, agropecuaristas tiveram de colocar o pé no freio para tentar minimizar perdas. A cooperativa C.Vale foi uma das primeiras a anunciar que suspenderia, a partir de quarta-feira (23/05), o abate de 530 mil frangos e 50 mil tilapias. Mas nem todos conseguiram reduzir prejuízos: sem ter como escoar a produção, cooperativas de leite tiveram de jogar fora milhares de litros do produto e suspender a ordenha dos animais.

Pesquisas indicam que cerca de 80% da carga do agronegócio brasileiro seja transportada por rodovias. “Além de não ser o mais indicado, porque perdemos em competitividade, temos o custo socioeconômico desta questão. São muitas as mortes nas estradas e a qualidade de vida dos caminhoneiros no Brasil também está longe de ser a ideal. Somos um País que optamos pelas rodovias para escoar nossa produção, mas nos esquecemos de cuidar delas”, acrescenta Marcus Quintella, professor de MBAs da FGV.

“O mais complicado desta situação é ver que, mesmo se começássemos a investir hoje em ferrovias para implementar a multimodalidade, levaríamos, pelo menos, de 15 a 20 anos para começar a resolver o problema”, destaca ele.

Ele cita como referência estudos como o do economista Claudio Frischtak, que aponta a necessidade de o País investir de 4% a 5% do seu PIB por ano, por 20 anos, para equalizar sua questão logística. “Seriam volumes da ordem de US$ 200 bilhões ou mais. É muito dinheiro. Hoje o Brasil investe cerca de 2% do seu PIB. O pior é que, mesmo se tivéssemos todo este dinheiro em cima de uma mesa, não saberíamos direito por onde começar porque não existem projetos”, lamenta Quintella.

A greve dos caminhoneiros reflete a asfixia que a categoria vem sofrendo nos últimos meses e que foi agravada pela alta do preço do petróleo no mercado internacional e pela elevação do dólar frente ao real. A proposta feita na terça-feira (22) pelo Governo de zerar a Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) não agradou à classe, que mantém a paralisação.

“Estou em contato com administradores dos portos de Santos, Tubarão e Paranaguá. Todos estão muito preocupados porque as cargas não estão conseguindo chegar e não há sinalização de uma solução imediata para o problema”, comenta o diretor da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), Aluísio Sobreira. De acordo com ele, ainda não há cálculos sobre o impacto negativo da greve, mas os números prometem ser assustadores.

Além de destacar a necessidade de investimentos e de projetos logísticos de longo prazo, Sobreira destaca o peso do ICMS sobre os combustíveis, principalmente em estados como Rio de Janeiro e Pernambuco, onde o imposto incidente ultrapassa 25%.

“Temos um problema estrutural grave, que precisa ser resolvido urgentemente. Não se faz agronegócio competitivo sem logística integrada”, defende Sobreira.

Promessas: o Plano Plurianual (2016-2019) da Secretaria de Logística e Transporte previa investimentos de mais de R$ 8 trilhões no setor em quatro anos. A expectativa de especialistas é que, ao final do período, o montante desembolsado fique muito aquém do previsto.

(Reportagem: Sociedade Nacional de Agricultura / RJ)